LISTA MODERNISMO E CONTEMPORÂNEA NO ENEM
Questão 1
TEXTO I
A 13 de fevereiro de 1946, Graciliano Ramos escreve uma carta a Cândido Portinari relembrando uma visita que lhe fizera quando tivera a ocasião de apreciar algumas telas da série Retirantes. Diz o escritor alagoano:
Caríssimo Portinari:
A sua carta chegou muito atrasada, e receio que esta resposta já não o ache fixando na tela a nossa pobre gente da roça. Não há trabalho mais digno, penso eu. Dizem que somos pessimistas e exibimos deformações; contudo, as deformações e essa miséria existem fora da arte e são cultivadas pelos que nos censuram. […]
Dos quadros que você me mostrou quando almocei no Cosme Velho pela última vez, o que mais me comoveu foi aquela mãe com a criança morta. Saí de sua casa com um pensamento horrível: numa sociedade sem classes e sem miséria, seria possível fazer-se aquilo? Numa vida tranquila e feliz, que espécie de arte surgiria? Chego a pensar que teríamos cromos, anjinhos cor-de-rosa, e isto me horroriza.
Graciliano
Disponível em: https://graciliano.com.br. Acesso em: 6 fev. 2024 (adaptado).
TEXTO II
Histórias de ninar (adultos)
Houve um tempo – tão perto, e, ó, tão longe – em que a arte era um holofote na unha encravada, não um campeonato de melhores esmaltes.
Raskolnikov matava velhinhas, a família de Gregor Samsa o assassinava a “maçãzadas”, Memórias póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis) é o retrato mais perfeito de tudo o que tem de pior na sociedade brasileira, uma sequência tristemente hilária de ações moralmente condenáveis, atitudes pusilânimes, cálculos mesquinhos e maus passos cretinos.
A literatura, o cinema e o teatro vêm se transformando num exercício de lacração: o mal está sempre no outro, os protagonistas são ironmen/women da virtude. A pessoa sai da leitura ou da sessão não com a guarda abaixada, as certezas abaladas, mais próxima da verdade (ou, à falta de uma palavra melhor, da sinceridade): sai com suas certezas reforçadas.
A realidade é confusa. Contraditória. Muitas vezes incompreensível. A arte é onde tentamos nos mostrar nus, com todos os nossos defeitos.
PRATA, A. Disponível em: www1.folha.uol.com.br. Acesso em: 12 jan. 2024 (adaptado).
No que diz respeito à arte, o posicionamento de Antônio Prata, no Texto II, aproxima-se da tese de Graciliano Ramos, no Texto I, uma vez que ambos
A) defendem a dignidade do ofício dos artistas.
B) concluem que a arte reforça crenças pessoais.
C) apresentam a pobreza como inspiração para a arte.
D) afirmam o necessário caráter desestabilizador da arte.
E) atestam que há mudanças significativas na produção artística.
Questão 2
A verdade é que não me
preocupo muito com o outro mundo. Admito Deus, pagador celeste dos meus
trabalhadores, mal remunerados cá na terra, e admito o diabo, futuro carrasco
do ladrão que me furtou uma vaca de raça. Tenho, portanto, um pouco de
religião, embora julgue que, em parte, ela é dispensável a um homem. Mas mulher
sem religião é horrível. Comunista, materialista. Bonito casamento! Amizade
com o Padilha, aquele imbecil. “Palestras amenas e variadas”. Que haveria nas
palestras? Reformas sociais,
ou coisa pior. Sei lá! Mulher sem religião é capaz de tudo.
RAMOS, G. São Bernardo. Rio de Janeiro: Record, 1981.
Uma das características da prosa de Graciliano Ramos é ser bastante direta e enxuta. No romance São Bernardo, o autor faz a análise psicológica de personagens e expõe desigualdades sociais com base na relação entre patrão e empregado, além da relação conjugal. Nesse sentido, o texto revela um(a)
A) narrador
personagem que coloca no mesmo plano Deus e o diabo, além de defender o
livre-arbítrio
feminino no tocante à religião.
B)
narrador onisciente, que não participa da história, conhecedor profundo do
caráter machista de Paulo
Honório e da sua ideologia política.
C) narração
em terceira pessoa que explora o aspecto objetivo e claro da linguagem para
associar o espaço
interno do personagem ao espaço externo.
D)
discurso em primeira pessoa que transmite o caráter ambíguo da religiosidade do
personagem e sua
convicção acerca da relação que a mulher deve ter com a religião.
E)
narrador alheio às questões socioculturais e econômicas da sociedade
capitalista e que defende
a divisão dos bens e o trabalho coletivo como modo de organização social e
política.
Questão 3
Exmº Sr. Governador:
Trago a V. Exa. um resumo dos trabalhos realizados pela Prefeitura de Palmeira dos Índios em 1928.
[…]
ADMINISTRAÇÃO Relativamente à quantia orçada, os telegramas custaram pouco. De ordinário vai para eles dinheiro considerável. Não há vereda aberta pelos matutos que prefeitura do interior não ponha no arame, proclamando que a coisa foi feita por ela; comunicam-se as datas históricas ao Governo do Estado, que não precisa disso; todos os acontecimentos políticos são badalados. Porque se derrubou a Bastilha – um telegrama; porque se deitou pedra na rua – um telegrama; porque o deputado F. esticou a canela – um telegrama.
Palmeira dos Índios, 10 de janeiro de 1929.
GRACILIANO RAMOS
RAMOS, G. Viventes das Alagoas. São Paulo: Martins Fontes, 1962.
O relatório traz a assinatura de Graciliano Ramos, na época, prefeito de Palmeira dos Índios, e é destinado ao governo do estado de Alagoas. De natureza oficial, o texto chama a atenção por contrariar a norma prevista para esse gênero, pois o autor
a) emprega sinais de pontuação em excesso.
b) recorre a termos e expressões em desuso no português.
c) apresenta-se na primeira pessoa do singular, para conotar intimidade com o destinatário.
d) privilegia o uso de termos técnicos, para demonstrar conhecimento especializado.
e) expressa-se em linguagem mais subjetiva, com carga emocional.
Questão 4
E fui mostrar ao ilustre hóspede [o governador do Estado] a serraria, o descaroçador e o estábulo. Expliquei em resumo a prensa, o dínamo, as serras e o banheiro carrapaticida. De repente supus que a escola poderia trazer a benevolência do governador para certos favores que eu tencionava solicitar.
— Pois sim senhor. Quando V. Exª. vier aqui outra vez, encontrará essa gente aprendendo cartilha.
RAMOS, G. São Bernardo. Rio de Janeiro: Record, 1991.
O fragmento do romance de Graciliano Ramos dialoga com o contexto da Primeira República no Brasil, ao focalizar o(a)
A) derrocada de práticas clientelistas.
B) declínio do antigo atraso socioeconômico.
C) liberalismo desapartado de favores do Estado.
D) fortalecimento de políticas públicas educacionais.
E) aliança entre a elite agrária e os dirigentes políticos.
Questão 5
TEXTO I
Quem sabe, devido às atividades culinárias da esposa, nesses idílios Vadinho dizia-lhe “Meu manuê de milho verde, meu acarajé cheiroso, minha franguinha gorda”, e tais comparações gastronômicas davam justa ideia de certo encanto sensual e caseiro de dona Flor a esconder-se sob uma natureza tranquila e dócil. Vadinho conhecia-lhe as fraquezas e as expunha ao sol, aquela ânsia controlada de tímida, aquele recatado desejo fazendo-se violência e mesmo incontinência ao libertarse na cama.
AMADO, J. Dona Flor e seus dois maridos. São Paulo: Martins, 1966.
TEXTO II
As suas mãos trabalham na braguilha das calças do falecido. Dulcineusa me confessou mais tarde: era assim que o marido gostava de começar as intimidades. Um fazer de conta que era outra coisa, a exemplo do gato que distrai o olhar enquanto segura a presa nas patas. Esse o acordo silencioso que tinham: ele chegava em casa e se queixava que tinha um botão a cair. Calada, Dulcineusa se armava dos apetrechos da costura e se posicionava a jeito dos prazeres e dos afazeres.
COUTO, M. Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra. São Paulo: Cia. das Letras, 2002.
Tema recorrente nas obras de Jorge Amado, a figura feminina aparece, no fragmento, retratada de forma semelhante à que se vê no texto do moçambicano Mia Couto. Nesses dois textos, com relação ao universo feminino em seu contexto doméstico, observa-se que:
A) o desejo sexual é entendido como uma fraqueza moral, incompatível com a mulher casada.
B) a mulher tem um comportamento marcado por convenções de papéis sexuais.
C) à mulher cabe o poder da sedução, expresso pelos gestos, olhares e silêncios que ensaiam.
D) a mulher incorpora o sentimento de culpa e age com apatia, como no mito bíblico da serpente.
E) a dissimulação e a malícia fazem parte do repertório feminino nos espaços público e íntimo.
Questão 6
Texto I
Logo depois transferiram para
o trapiche o depósito dos objetos que o trabalho do dia lhes proporcionava.
Estranhas coisas entraram então para o trapiche. Não mais estranhas, porém, que
aqueles meninos, moleques de todas as cores e de idades as mais variadas, desde
os nove aos dezesseis anos, que à noite se estendiam pelo assoalho e por
debaixo da ponte e dormiam, indiferentes ao vento que circundava o casarão
uivando, indiferentes à chuva que muitas vezes os lavava, mas com os olhos
puxados para as luzes dos navios, com os ouvidos presos às canções que vinham
das embarcações…
AMADO, Jorge. Capitães da Areia. São Paulo: Companhia das Letras, 2008 (Fragmento).
Texto II
À margem esquerda do rio Belém, nos fundos do mercado de peixe, ergue-se o velho ingazeiro – ali os bêbados são felizes. Curitiba os considera animais sagrados, provê as suas necessidades de cachaça e pirão. No trivial contentavam-se com as sobras do mercado.
TREVISAN, Dalton. 35 noites de paixão: contos escolhidos. Rio de Janeiro: BestBolso, 2009 (Fragmento).
Sob diferentes perspectivas, os fragmentos citados são exemplos de uma abordagem literária recorrente na literatura brasileira do século XX. Em ambos os textos,
A) a linguagem afetiva aproxima os narradores dos personagens marginalizados.
B) a ironia marca o distanciamento dos narradores em relação aos personagens
C) o detalhamento do cotidiano dos personagens revela a sua origem social.
D) o espaço onde vivem os personagens é uma das marcas de sua exclusão.
E) a crítica à indiferença da sociedade pelos marginalizados é direta.
Questão 7
TEXTO
I
É muito importante entender que a significatividade do mundo, constituída pelas
estruturas linguístico-conceituais, não se reduz a uma significatividade apenas
cognitiva. Proporcionar uma significação para o mundo pode também consistir em
lidar com ele no sentido do “padecer”.
CABRERA,
J. Margens das filosofias da linguagem.
Brasília: UnB, 2003 (adaptado).
TEXTO
II
Mundo, mundo, vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo, mundo, vasto mundo
Mais vasto é meu coração.
ANDRADE,
C. D. Antologia poética. Rio de Janeiro:
Record, 1996 (fragmento).
Com base nas informações presentes no Texto I, a consideração sobre o mundo no Texto II tem uma significação:
A) Valorativa, porque julga os atos praticados.
B) Imperativa, porque comanda as ações efetivas.
C) Figurativa, porque contempla a realidade objetiva.
D) Expressiva, porque manifesta a experiência vivida.
E) Atitudinal, porque alcança as aspirações individuais
Questão 8
Mãos dadas
Não serei o poeta de um mundo
caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história.
Não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela.
Não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.
Não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os
homens presentes,
a vida presente.
ANDRADE, C. D. Sentimento do mundo. São Paulo: Cia. das Letras, 2012.
Escrito em 1940, o poema Mãos dadas revela um eu lírico marcado pelo contexto de opressão política no Brasil e da Segunda Guerra Mundial. Em face dessa realidade, o eu lírico:
A) considera que em sua época o mais importante é a independência dos indivíduos.
B) desvaloriza a importância dos planos pessoais na vida em sociedade.
C) reconhece a tendência à autodestruição em uma sociedade oprimida.
D) escolhe a realidade social e seu alcance individual como matéria poética.
E) critica o individualismo comum aos românticos e aos excêntricos.
Questão 9
Ser cronista
Sei que não sou, mas tenho meditado ligeiramente no assunto.
Crônica é um relato? É uma conversa? É um resumo de um estado de espírito? Não sei, pois antes de começar a escrever para o Jornal do Brasil, eu só tinha escrito romances e contos.
E também sem perceber, à medida que escrevia para aqui, ia me tornando pessoal demais, correndo o risco deem breve publicar minha vida passada e presente, o que não pretendo. Outra coisa notei: basta eu saber que estou escrevendo para jornal, isto é, para algo aberto facilmente por todo o mundo, e não para um livro, que só é aberto por quem realmente quer, para que, sem mesmo sentir, o modo de escrever se transforme. Não é que me desagrade mudar, pelo contrário. Mas queria que fossem mudanças mais profundas e interiores que não viessem a se refletir no escrever. Mas mudar só porque isso é uma coluna ou uma crônica? Ser mais leve só porque o leitor assim o quer? Divertir? Fazer passar uns minutos de leitura? E outra coisa: nos meus livros quero profundamente a comunicação profunda comigo e com o leitor. Aqui no Jornal apenas falo com o leitor e agrada-me que ele fique agradado. Vou dizer a verdade: não estou contente.
LISPECTOR, C. In: A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.
No texto, ao refletir sobre a atividade de cronista, a autora questiona características do gênero crônica, como
A) relação
distanciada entre os interlocutores.
B) articulação de vários núcleos narrativos.
C) brevidade no tratamento da temática.
D) descrição minuciosa dos personagens.
E) público leitor exclusivo.
Questão 10
Ela parecia pedir socorro
contra o que de algum modo involuntariamente dissera. E ele com os olhos miúdos
quis que ela não fugisse e falou:
— Repita o que você disse, Lóri.
— Não sei mais.
— Mas eu sei, eu vou saber sempre. Você literalmente disse: um dia será o mundo
com sua impersonalidade soberba versus a
minha extrema individualidade de pessoa, mas seremos um só.
— Sim.
Lóri estava suavemente espantada. Então isso era a felicidade. De início se
sentiu vazia. Depois seus olhos ficaram úmidos: era felicidade, mas como sou
mortal, como o amor pelo mundo me transcende. O amor pela vida mortal a
assassinava docemente, aos poucos. E o que é que eu faço? Que faço da
felicidade? Que faço dessa paz estranha e aguda, que já está começando a me
doer como uma angústia, como um grande silêncio de espaços? A quem dou minha
felicidade, que já está começando a me rasgar um pouco e me assusta? Não, não
quero ser feliz. Prefiro a mediocridade. Ah, milhares de pessoas não têm
coragem de pelo menos prolongar-se um pouco mais nessa coisa desconhecida que é
sentir-se feliz e preferem a mediocridade. Ela se despediu de Ulisses quase
correndo: ele era o perigo.
LISPECTOR, C. Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1990.
A obra de Clarice Lispector alcança forte expressividade em razão de determinadas soluções narrativas. No fragmento, o processo que leva a essa expressividade fundamenta-se no
A) desencontro estabelecido no diálogo do par amoroso.
B) exercício de análise filosófica conduzido pelo narrador.
C) registro do processo de autoconhecimento da personagem.
D) discurso fragmentado como reflexo de traumas psicológicos.
E) afastamento da voz narrativa em relação aos dramas existenciais.
Questão 11
Sim, ela sentia dentro de si um animal perfeito. Repugnava-lhe deixar um dia esse animal solto. Por medo talvez da falta de estética. Ou receio de alguma revelação… Não, não, — repetia-se ela — é preciso não ter medo de criar. No fundo de tudo possivelmente o animal repugnava-lhe porque ainda havia nela o desejo de agradar e de ser amada por alguém poderoso como a tia morta. Para depois no entanto pisá-la, repudiá-la sem contemplações. Porque a melhor frase, sempre ainda a mais jovem, era: a bondade me dá ânsias de vomitar. A bondade era morna e leve, cheirava a carne crua guardada há muito tempo. Sem apodrecer inteiramente apesar de tudo. Refrescavam-na de quando em quando, botavam um pouco de tempero, o suficiente para conservá-la um pedaço de carne morna e quieta.
LISPECTOR, C. Perto do coração selvagem. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.
Nessa passagem, a reflexão feita pela personagem resulta da sua tomada de consciência da
A) inclinação do ser humano para o egoísmo.
B) violência sofrida pelos membros da família.
C) dissimulação praticada em nome da convivência.
D) dificuldade de relacionamento entre as gerações.
E) postura de desdém pela memória da tia morta.
Questão 12
Qualquer que tivesse sido o seu trabalho anterior, ele o abandonara, mudara de profissão e passara pesadamente a ensinar no curso primário: era tudo o que sabíamos dele.
O professor era gordo, grande e silencioso, de ombros contraídos. Em vez de nó na garganta, tinha ombros contraídos. Usava paletó curto demais, óculos sem aro, com um fio de ouro encimando o nariz grosso e romano. E eu era atraída por ele. Não amor, mas atraída pelo seu silêncio e pela controlada impaciência que ele tinha em nos ensinar e que, ofendida, eu adivinhara. Passei a me comportar mal na sala. Falava muito alto, mexia com os colegas, interrompia a lição com piadinhas, até que ele dizia, vermelho:
— Cale-se ou expulso a senhora da sala.
Ferida, triunfante, eu respondia em desafio: pode me mandar! Ele não mandava, senão estaria me obedecendo. Mas eu o exasperava tanto que se tornara doloroso para mim ser objeto do ódio daquele homem que de certo modo eu amava. Não o amava como a mulher que eu seria um dia, amava-o como uma criança que tenta desastradamente proteger um adulto, com a cólera de quem ainda não foi covarde e vê um homem forte de ombros tão curvos.
LISPECTOR, C. Os desastres de Sofia. In: A legião estrangeira. São Paulo: Ática, 1997.
Entre os elementos constitutivos dos gêneros está a sua própria estrutura composicional, que pode apresentar um ou mais tipos textuais, considerando-se o objetivo do autor. Nesse fragmento, a sequência textual que caracteriza o gênero conto é a
A) expositiva, em que se apresentam as razões da atitude provocativa da aluna.
B) injuntiva, em que se busca demonstrar uma ordem dada pelo professor à aluna.
C) descritiva, em que se constrói a imagem do professor com base nos sentidos da narradora.
D) argumentativa, em que se defende a opinião da enunciadora sobre o personagem-professor.
E) narrativa, em que se contam fatos ocorridos com o professor e a aluna em certo tempo e lugar.
Questão 13
Dão
Lalalão
Do povoado do Ão, ou dos sítios perto, alguém precisava urgente de querer vir
por escutar a novela do rádio. Ouvia-a, aprendia-a, guardava na ideia, e,
retornado ao Ão, no dia seguinte, a repetia a outros.
Assim estavam jantando, vinham os do povoado receber a nova parte da novela do rádio. Ouvir já tinham ouvido tudo, de uma vez, fugia da regra: falhara ali no Ão, na véspera, o caminhão de um comprador de galinhas e ovos, seo Abrãozinho Buristém, que carregava um rádio pequeno, de pilhas, armara um fio no arame da cerca… Mas queriam escutar outra vez, por confirmação. — “A estória é estável de boa, mal que acompridada: taca e não rende…” — explicava o Zuz ao Dalberto.
Soropita começou a recontar o capitulo da novela. Sem trabalho, se recordava das palavras, até com clareza — disso se admirava. Contava com prazer de demorar, encher a sala com o poder de outros altos personagens. Tomar a atenção de todos, pudesse contar aquilo noite adiante. Era preciso trazer luz, nem uns enxergavam mais os outros; quando alguém ria, ria de muito longe. O capitulo da novela estava terminando.
ROSA, J. G. Noites do sertão (Corpo de baile). São Paulo: Global, 2021.
Nesse trecho do conto, o gosto dos moradores do povoado por ouvir a novela de rádio recontada por Soropita deve-se ao(à)
a) qualidade do som do rádio.
b) estabilidade do enredo contado.
c) ineditismo do capítulo da novela.
d) jeito singular de falar aos ouvintes.
e) dificuldade de compreensão da história.
Questão 14
da sua memória
mil
e
mui
tos
out
ros
ros
tos
sol
tos
pou
coa
pou
coa
pag
amo
meu
ANTUNES, A. 2 ou + corpos no mesmo espaço. São Paulo: Perspectiva, 1998.
Trabalhando com recursos formais inspirados no Concretismo, o poema atinge uma expressividade que se caracteriza pela
a) interrupção da fluência verbal, para testar os limites da lógica racional.
b) reestruturação formal da palavra, para provocar o estranhamento no leitor.
c) dispersão das unidades verbais, para questionar o sentido das lembranças.
d) fragmentação da palavra, para representar o estreitamento das lembranças.
e) renovação das formas tradicionais, para propor uma nova vanguarda poética.
Questão 15
Ave a raiva desta noite
A baita lasca fúria abrupta
Louca besta vaca solta
Ruiva luz que contra o dia
Tanto e tarde madrugada.
LEMINSKI, P. Distraídos venceremos. São Paulo: Brasiliense, 2002 (fragmento)
No texto de Leminski, a linguagem produz efeitos sonoros e jogos de imagens. Esses jogos caracterizam a função poética da linguagem, pois
A) objetivam convencer o leitor a praticar uma determinada ação.
B) transmitem informações, visando levar o leitor a adotar um determinado comportamento.
C) visam provocar ruídos para chamar a atenção do leitor.
D) apresentam uma discussão sobre a própria linguagem, explicando o sentido das palavras.
E) representam um uso artístico da linguagem, com o objetivo de provocar prazer estético no leitor.
Questão 16
Razão de ser
Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?
LEMINSKI, P. Melhores poemas de Paulo Leminski. São Paulo: Global, 2013.
Ao abordar o próprio processo de criação, o poeta recorre a exemplificações com o propósito de representar a escrita como uma atividade que
A) requer a criatividade do artista.
B) dispensa explicações racionais.
C) independe da curiosidade do leitor.
D) pressupõe a observação da natureza.
E) decorre da livre associação de imagens
Questão 17
Contranarciso
em mim
eu vejo o outro
e outro
e outro
enfim dezenas
trens passando
vagões cheios de gente
centenas
o outro
que há em mim
é você
você
e você
assim como
eu estou em você
eu estou nele
em nós
e só quando
estamos em nós
estamos em paz
mesmo que estejamos a sós
LEMINSKI, P. Toda poesia. São Paulo: Cia. das Letras. 2013.
A busca pela identidade constitui uma faceta da tradição literária, redimensionada pelo olhar contemporâneo. No poema, essa nova dimensão revela a
A) ausência de traços identitários.
B) angústia com a solidão em público.
C) valorização da descoberta do “eu” autêntico.
D) percepção da empatia como fator de autoconhecimento.
E) impossibilidade de vivenciar experiências de pertencimento.
Questão 18
Aquarela
O corpo no cavalete
é um pássaro que agoniza
exausto do próprio grito.
As vísceras vasculhadas
principiam a contagem
regressiva.
No assoalho o sangue
se decompõe em matizes
que a brisa beija e balança:
ο verde – de nossas matas
ο amarelo – de nosso ouro
ο azul – de nosso céu
ο branco o negro o negro
CACASO. In: HOLLANDA. H. B
(Org.).
26 poetas hoje. Rio do Janeiro: Aeroplano, 2007.
Situado na vigência do Regime Militar que governou o Brasil, na década de 1970, o poema de Cacaso edifica uma forma de resistência e protesto a esse período, metaforizando
a) as artes plásticas,
deturpadas pela repressão e censura.
b) a natureza brasileira, agonizante como um pássaro enjaulado.
c) o nacionalismo romântico, silenciado pela perplexidade com a Ditadura.
d) o emblema nacional, transfigurado pelas marcas do medo e da violência.
e) as riquezas da terra, espoliadas durante o aparelhamento do poder armado
Questão 19
Ai, palavras, ai, palavras
Que estranha potência a vossa!
Todo o sentido da vida
Principia a vossa porta:
O mel do amor cristaliza
Seu perfume em vossa rosa;
Sois o sonho e sois a audácia,
Calúnia, fúria, derrota…
A liberdade das almas,
ai! Com letras se elabora…
e dos venenos humanos
sois a mais fina retorta:
frágil, frágil, como o vidro
e mais que o aço poderosa!
Reis, impérios, povos, tempos,
pelo vosso impulso rodam…
MEIRELES, C. Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1985 (fragmento).
O fragmento destacado foi transcrito do Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles. Centralizada no episódio histórico da Inconfidência Mineira, a obra, no entanto, elabora uma reflexão mais ampla sobre a seguinte relação entre o homem e a linguagem:
A) A força e a resistência humanas superam os danos provocados pelo poder corrosivo das palavras.
B) As relações humanas, em suas múltiplas esferas, têm seu equilíbrio vinculado aos significado das palavras.
C) O significado dos nomes não expressa de forma justa e completa a grandeza da luta do homem pela vida.
D) Renovando o significado das palavras, o tempo permite às gerações perpetuar seus valores e suas crenças.
E) Como produto da criatividade humana, a linguagem tem seu alcance limitado pelas intenções e gestos.
Questão 20
Canção
No desequilíbrio dos mares,
as proas giram sozinhas…
Numa das naves que afundaram
é que certamente tu vinhas.
Eu te esperei todos os séculos
sem desespero e sem desgosto,
e morri de infinitas mortes
guardando sempre o mesmo rosto.
Quando as ondas te carregaram
meus olhos, entre águas e areias,
cegaram como os das estátuas,
a tudo quanto existe alheias.
Minhas mãos pararam sobre o ar
e endureceram junto ao vento,
e perderam a cor que tinham
e a lembrança do movimento.
E o sorriso que eu te levava
desprendeu-se e caiu de mim:
e só talvez ele ainda viva
dentro destas águas sem fim.
MEIRELES, C. In: SECCHIN, A. C. (Org.). Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.
Na composição do poema, o tom elegíaco e solene manifesta uma concepção de lirismo fundada na
A) contradição entre a vontade da espera pelo ser amado e o desejo de fuga.
B) expressão do desencanto diante da impossibilidade da realização amorosa.
C) associação de imagens díspares indicativas de esperança no amor futuro.
D) recusa à aceitação da impermanência do sentimento pela pessoa amada.
E) consciência da inutilidade do amor em relação à inevitabilidade da morte
Questão 21
Cântico VI
Tu tens um medo de
Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.
MEIRELES, C. Antologia poética. Rio de Janeiro: Record, 1963 (fragmento).
A poesia de Cecília Meireles revela concepções sobre o homem em seu aspecto existencial. Em Cântico VI, o eu lírico exorta seu interlocutor a perceber, como inerente à condição humana,
A) a sublimação espiritual graças ao poder de se emocionar.
B) o desalento irremediável em face do cotidiano repetitivo.
C) o questionamento cético sobre o rumo das atitudes humanas.
D) a vontade inconsciente de perpetuar-se em estado adolescente.
E) um receio ancestral de confrontar a imprevisibilidade das coisas.
Questão 22
(PUC-PR) A poesia concreta no Brasil caracteriza-se por:
a) dar continuidade à corrente intimista e estetizante dos anos 40.
b) descaso pelos aspectos formais do poema e preferências pela linguagem correta.
c) preocupação com a correção sintática, pela renovação dos temas relacionados com os estados psíquicos do poeta.
d) rigidez no nível prosódico e pela impassibilidade diante dos problemas nacionais.
e) visar a atingir e a explorar as camadas materiais do significante (som, letra impressa, linhas, superfície da folha).
Questão 23
de sol a sol
soldado
de sal a sal
salgado
de sova a sova
sovado
de suco a suco
sugado
de sono a sono
sonado
sangrado
de sangue a sangue
O poema concretista, acima indicado, apresenta as seguintes inovações no campo verbal e visual:
a) abolição do verso tradicional; desintegração do sistema em seus morfemas; a palavra dá lugar ao símbolo gráfico.
b) apresentação de um ideograma; uso de estrangeirismos, esfacelamento da linguagem.
c) ausência de sinais de pontuação; uso intensivo de certos fonemas; jogos sonoros e uso de justaposição.
d) uso construtivo dos espaços brancos; neologismo; separação dos sufixos e dos prefixos; uso de versos alexandrinos.
e) apresentação de trocadilhos; uso de termos plurilinguísticos; desintegração da palavra e emprego de símbolos gráficos.
Questão 24
Logia e mitologia
Meu coração
de mil e novecentos e setenta e dois
Já não palpita fagueiro
sabe que há morcegos de pesadas olheiras
que há cabras malignas que há
cardumes de hienas infiltradas
no vão da unha da alma
um porco belicoso de radar
e que sangra e ri
e que sangra e ri
a vida anoitece provisória
centuriões sentinelas
do Oiapoque ao Chuí.
CACASO. Lero-lero. Rio de Janeiro: 7Letras; São Paulo: Cosac & Naify,2002.
O título do poema explora a expressividade de termos que representam o conflito do momento histórico vivido pelo poeta na década de 1970. Nesse contexto, é correto afirmar que:
A) o poeta utiliza uma série de metáforas zoológicas com significado impreciso.
B) “morcegos”, “cabras”, e “hienas” metaforizam as vítimas do regime militar vigente.
C) o “porco” , animal difícil de domesticar, representa os movimentos de resistência.
D) o poeta caracteriza o momento de opressão através de alegorias de forte poder de impacto.
E) “centuriões” e “sentinelas” simbolizam os agentes que garantem a paz social experimentada.